* Paulo Aragão: O homem que imprimiu ideias

Pais


José Rufino de Aragão

    1851–1937

Anna Maria Ximenes de Mello

    1856–1951

Irmãos (12)


Raymunda Ximenes de Aragão

1881–1974

Rita Ximenes de AragãoFeminino

1884–Falecida

Verônica Ximenes de Aragão

1886–1959

Francisco Ximenes de Aragão

1888–1945

David Ximenes de Aragão

1888–1969

Maria Ximenes de Aragão

1891

Maria José Ximenes de Aragão

1892–1973

Joaquim Ximenes de Aragão

1893–1975

Anna Ximenes de Aragão

1895–1945

Paulo Ximenes Aragão

1897–1979

Francisca Ximenes Aragão de Mello

1899–1989

Joaquim Ximenes de Aragão

1903–Falecido


Paulo não foi apenas um escritor ou jornalista

Sobral aprendeu cedo a pronunciar o nome de Paulo Ximenes Aragão como quem fala de alguém íntimo. Não apenas porque uma rua passou a carregar seu nome, nas proximidades do Arco de Nossa Senhora de Fátima, mas porque, por décadas, ele esteve presente na vida intelectual, cultural e social da cidade como poucos homens estiveram. Paulo não foi apenas um escritor ou jornalista: foi um construtor silencioso de instituições, ideias e oportunidades.

Paulo Aragão nasceu em 25 de janeiro de 1897, na Fazenda Amazonas, território que hoje integra o município de Forquilha, no interior do Ceará. Era filho de José Rufino Aragão e Ana Maria Ximenes de Mello, herdeiro de uma linhagem antiga, mas lançado em um mundo de escassez material. Desde cedo, o menino demonstrou inclinação incomum para as letras, mesmo enfrentando as limitações impostas pelo ambiente rural e pela falta de recursos.

Aprendeu as primeiras letras na escola pública. Quando já não lhe foi possível prosseguir formalmente nos estudos, Paulo tomou uma decisão que definiria toda a sua vida: passou a aprender sozinho. Tornou-se autodidata, movido por curiosidade, disciplina e uma obstinação rara. Aos 13 anos, já dava sinais claros de vocação jornalística. Entre 1910 e 1912, escrevia jornais manuscritos, entre os quais se destacou Dever. Ainda muito jovem, fundou também os periódicos Gazeta Central e A Pena, revelando não apenas talento para a escrita, mas desejo profundo de comunicar.

Esse desejo era tão intenso que, em 1915, Paulo protagonizou um episódio que se tornaria lendário na história da imprensa cearense. Sem acesso a equipamentos tipográficos industriais, improvisou uma tipografia artesanal, fabricando tipos e prelo com pau d'arco, madeira de extrema resistência. Com canivete, engenho e paciência, entalhou letra por letra, transformando madeira em palavra impressa. Assim nasceu o jornal A Penna, símbolo de um espírito inquieto e criador, fascinado pelo poder multiplicador da imprensa. 

Nesse mesmo período, Paulo Aragão foi incorporado à tipografia do jornal O Rebate, em Sobral, onde se fez tipógrafo e jornalista. Ali, conviveu com o universo da imprensa moderna, aprendendo na prática aquilo que os livros sozinhos não ensinavam. Em 1914, aos 17 anos, passou a trabalhar com o jornalista Vicente Loiola, editor do próprio O Rebate, aprofundando sua formação no ofício.

Em 1917, Paulo mudou-se para Camocim, onde fundou o quinzenário Folha do Litoral. Paralelamente ao jornalismo, atuou como contador e participou da fundação da Associação Comercial de Camocim, revelando uma faceta menos conhecida, mas igualmente importante: a do organizador da vida econômica.

No ano seguinte, 1918, retornou a Sobral. Continuou a trabalhar como contador, escreveu poesias e colaborou com os jornais locais. Em 1921, fundou a Associação dos Empregados no Comércio de Sobral, instituição voltada à defesa e à formação dos trabalhadores do setor. Nesse mesmo ano, seus poemas alcançaram reconhecimento nacional ao serem publicados na prestigiada revista carioca O Malho.

Entre 1927 e 1932, Paulo Aragão dedicou-se intensamente à fundação de escolas, sobretudo aquelas vinculadas à Associação dos Empregados no Comércio, onde mantinha a revista O Trabalho.

Associação Comercial de Sobral-CE
Associação Comercial de Sobral-CE

Em 1930, fundou uma Cooperativa de Crédito, que se transformaria no Banco Mercantil Caixeiral de Sobral, do qual foi Diretor-Gerente. Sob sua liderança, o banco tornou-se uma das instituições financeiras mais sólidas do interior cearense, sendo convertido, em 1940, no Banco de Crédito Comercial S.A.

A educação, entretanto, permaneceu como uma de suas maiores paixões. Em 1931, fundou a Escola Técnica de Comércio Dom José, homenagem àquele que apoiou decisivamente a iniciativa. Paulo foi seu primeiro diretor, cargo que exerceu por muitos anos, além de atuar como professor, formando gerações de jovens.

Talvez por nunca ter esquecido as dificuldades da própria juventude, Paulo Aragão tornou-se um incentivador incansável dos que desejavam estudar, mas não tinham meios. Um dos casos mais conhecidos foi o de Joaquim Barreto Lima, futuro prefeito, que recebeu apoio integral de Paulo: estudou gratuitamente e, mais tarde, foi nomeado professor da escola. Em outro episódio revelador de seu caráter, Paulo inscreveu-se no Tiro de Guerra de Sobral como atirador, mesmo estando acima da idade permitida, apenas para incentivar os jovens a servir o Exército Brasileiro.

No campo literário e jornalístico, sua atuação foi vasta. Colaborou com jornais e revistas do Ceará e de outros estados, como O Malho, Fon-Fon, Revista Comercial do Brasil, Jornal do Comércio (PE), Folha do Norte (PA), além de inúmeros periódicos sobralenses, onde assinava, no Correio da Semana, a coluna "Vou te Contar". Foi sócio fundador da Associação Cearense de Imprensa, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Ceará e da Associação dos Jornalistas do Interior.

Em 1922, integrou o grupo que fundou a Academia Sobralense de Letras, e, em 1943, participou da criação da Academia Sobralense de Estudos e Letras, ao lado de outros intelectuais da cidade. Seu trabalho recebeu elogios de nomes como Barão de Studart, Leonardo Mota e Eduardo Girão.

Dinorah Aragão e Paulo Aragão
Dinorah Aragão e Paulo Aragão

Paulo Aragão foi casado com Dinorah Lins Aragão, com quem teve os filhos Ana, Maria, José, Jesuíno, Arisete, Ivete, Paulo, Antônio — este último conhecido nacionalmente como Renato Aragão. Em 1946, mudou-se para Fortaleza, onde atuou como representante comercial e colaborou com jornais da capital, como O Povo, Correio do Ceará e Unitário.

Deixou publicados os livros Primeiros Trilhos (1917), Brotos (1921), Emoções que Ficaram (1928), Passos sem Destino (1945) e Rastro das Horas (1956). Em 1982, Renato Aragão organizou e publicou Paulo Aragão – Poesias e Crônicas, reunindo parte significativa de sua obra.

Poeta, jornalista, professor, bancário, contista, humorista, comerciante, industrial — Paulo Aragão foi, acima de tudo, um autodidata comprometido com sua terra. Faleceu em 5 de março de 1979, em Fortaleza, aos 82 anos, sendo sepultado no Cemitério São José, no centro da cidade.

Sua vida foi uma prova de que ideias, quando impressas com coragem, podem atravessar gerações.


* PESQUISA RESUMIDA POR LOZANDRES BRAGA