Finalmente, Os Trapalhões

Quem não sorri não abre as porias da oportunidade.
Renato Aragão em trecho de seu livro Meus Caminhos

São vários os exemplos de quartetos que deram certo ao longo da história. Sejam eles na música (Beatles), nos quadrinhos (Quarteto Fantástico) ou, até, no mundo dos desenhos animados, com as famosas Tartarugas Ninja. Quatro parece ser um número fadado a boas criações. No caso do assunto tratado neste livro, como veremos, a escolha de quatro trapalhões veio com a lembrança dos naipes de um baralho: ás, espada, copas e ouro.

Em 1973, deu-se início a um processo gradual de mudança, que se tornaria definitiva, da Record, de São Paulo, para a Tupi, do Rio de Janeiro - por um tempo, o grupo chegou a atuar em duas emissoras distintas. Apesar de, naqueles tempos, ser uma prática comum atuar em mais de uma emissora, a presença do mesmo grupo - como dissemos -, com outro nome, na Record, começou a incomodar a Tupi do Rio.

E, se o elenco dos Trapalhões ainda não estava completo, algo, pelo menos, já mudava. Com a apresentação exclusiva na Tupi, o nome do programa passava a ser outro novamente.
Em 1973, após três anos de Record e Insociáveis, eles voltavam a se socializar, adotando o nome que sempre deveriam ter usado: Os Trapalhões - desta vez, sem o adjetivo adoráveis.

Não demorou muito para que Os Trapalhões passasse a ser exibido também na TV Tupi de São Paulo. "O sucesso foi estrondoso", segundo Dedé. Roberto Guilherme também se lembra: "Esse programa dava uma paulada na audiência das outras emissoras, a gente batia em todo mundo, inclusive na TV Globo, que, na época, havia sido criada com o elenco-base da TV Excelsior".

Nesse período, teve início a parceria, mais uma vez, de Carlos Alberto da Nóbrega com os Trapalhões. O apresentador estreitou os relacionamentos, porém, ocupando, agora, um posto no time de redatores do programa. Nóbrega, como conta, estreou no segundo programa quando já ia ao ar somente pela Tupi: "Os Trapalhões fizeram o primeiro programa na Tupi, e aí o Renato me ligou perguntando se eu podia escrever pra eles". O seu trabalho ao lado dos Trapalhões iria até 1987, quando se mudou para o SBT.

Se até a época da Record ainda havia o problema com o nome do grupo, desta vez não havia mais o que os impedisse.
Agora, como Os Trapalhões, o quarteto dava índices de audiência que ultrapassavam os 50 pontos. E, a cada domingo, sugava mais a audiência do Fantástico, da Globo.

A emissora do Jardim Botânico começou, então, a sondar a possibilidade de contar com Os Trapalhões em seu elenco, pela primeira vez. O ano era 1976. Cada vez mais, a TV Globo tornava-se a Rede Globo que conhecemos. Seus programas já eram exportados para alguns países da América Latina. O canal conquistava afiliadas nos quatro cantos do país.

Porém, o grupo não escondia uma certa apreensão com a ida para a Globo. De um lado, a mudança era bem-vinda do ponto de vista financeiro - àquela altura, a TV Tupi estava em seus últimos anos de vida (ela acabaria oficialmente em 1980), com muitos salários atrasados e, até, ameaças de greve.
Grande parte da renda do elenco de Os Trapalhões acabava mesmo vindo de uma série de merchandising, que garantiam uma verba a mais. Marcas como Hering, Marisol e Biotônico Fontoura eram presenças constantes durante os episódios.

Do outro lado, o maior medo é traduzido pelas palavras de Roberto Guilherme: "A Globo tinha aquela coisa do 'padrão de qualidade'. Quando incomodava, ela contratava, mas nem sempre ia ao ar", revela. Ou seja, o elenco tinha receio de que a Globo os contratasse apenas para enfraquecer a concorrência, mas sem uma garantia de que iriam ao ar.

A lente da verdade
Carlos Alberto da Nóbrega relembra o fato que, segundo ele, determinou o desejo de Renato Aragão de se mudar, definitivamente, de casa.
E foi por causa da lente de uma câmera.
"Seria cômico se não fosse trágico", diz o apresentador.
Nóbrega era o diretor da linha de shows da TV Tupi. As câmeras usadas na época, em quase todas as emissoras, possuíam uma lente removível. Ou seja, devido ao alto custo, era corriqueiro usar lentes em um determinado estúdio, e, quando a gravação terminava, a lente migrava para outro cenário. Levando-se em conta a situação financeira da Tupi - à época, em frangalhos a lente era mais do que revezada entre os programas.

Os Trapalhões gravavam normalmente, até que, sem qualquer pedido ou aviso prévio, durante uma breve pausa entre um esquete e outro, o diretor do núcleo de novelas da Tupi apareceu por lá e levou a lente que era usada para gravar Os Trapalhões. Carregou-a consigo para o seu núcleo, assim, sem mais nem menos.
Quando Renato viu que a lente não estava mais lá e descobriu a razão, parou tudo. "Eu vou embora e nunca mais volto pra trabalhar aqui!", teria dito o cearense, nas palavras de Carlos Alberto. Renato foi ao Rio de Janeiro conversar com a Globo e, no dia seguinte, ligou para o redator. Eis o diálogo:

- Carlinhos, você vem pro Rio porque hoje à noite você assina contrato com a Globo.
- Como as simy Renato, você ficou louco? Eu sou diretor da Tupi...
- Vem hoje à noite e assina o contrato com o Boni.

As palavras foram rápidas, e ele acabou realmente assinando com a Globo. Os dois acabaram por ser os únicos a assinar com a emissora carioca ainda em setembro. Em janeiro de 1977, os demais membros da equipe - inclusive os outros Trapalhões - fariam o mesmo.

Sobre o contrato com a Globo, feito totalmente em sigilo, Dedé ressalta a importância de Renato como líder do grupo.
"Nunca olhei muito pra esses detalhes. O Renato cuidava muito bem dessas negociações", diz.

Mas Renato não estava sozinho nessa tarefa. Ao lado dele, um vaqueiro de branco, como em um bom western tupiniquim, o ajudava na missão.

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