Biografia

José Menezes de França é um dos grandes músicos da história da nossa MPB e vem atuando bastante até agora, aos oitenta e nove anos. Zé é multi-instrumentista: toca violão de seis e sete cordas, violão tenor, bandolim, banjo, cavaquinho, viola de dez cordas, guitarra amplificada, guitarra portuguesa e contrabaixo; além de virtuose em seus instrumentos é um grande compositor e arranjador. Tocou aos oito anos para o Padre Cícero, que o abençoou, no Ceará; atuou em dupla com o virtuose do violão Garoto durante o período áureo da Rádio Nacional. Integrou o sexteto de Radamés Gnattali. Foi o primeiro violonista a tocar e gravar a “Introdução aos Choros” de Heitor Villa-Lobos na década de 50. Conviveu com praticamente todos os cantores da Mpb em palcos ou em estúdios gravando, de Orlando Silva à Roberto Carlos, os grandes sucessos de quase toda a Música Popular Brasileira. Foi arranjador da Rede Globo por trinta anos e lá compôs a música de abertura do programa Os Trapalhões que tornou-se sucesso imediato e até hoje está no ar. Zé Menezes está presente em várias gerações e estilos da MPB.

No ano de 2010 foi lançada a Box Zé Menezes/Autoral, pelo Projeto Petrobrás Apresenta, com três Cds contendo grande parte de sua obra e um Cd room com seu acervo digitalizado: partituras, grades de orquestra, biografia, vídeos, fotos, além da criação do site:

www.zemenezes.com.br

 

O início

Zé Menezes nasceu na pequena cidade cearense de Jardim, dia seis de setembro de 1921.

Aos seis anos já tocava requinta (instrumento de sopro da família do clarinete muito utilizado em bandas), logo passando para o cavaquinho, incentivado por um primo que também tocava o instrumento. Era um menino prodígio e tinha muita facilidade para música, foi aprendendo “de ouvido” os tangos e maxixes nos saraus na cidade e na banda que participou. Os comerciantes de Jardim se cotizaram e compraram seu primeiro cavaquinho por vinte cinco mil réis.

 

* Mestre em Música do Centro de Letras e Artes da UNIRIO. Saxofonistas, membro da banda "Altas Horas"; integrante do grupo Rabo de Lagartixa e participante do duo Spielmann Zagury, Farra dos brinquedos, Mulheres em Pixinguinha entre outros. Mestre em Música do Centro de Letras e Artes da UNIRIO.

 

O encontro do pequeno Zé com o Padre Cícero se deu assim:

A minha mãe fez promessa para o Padre Cícero para poder ter um parto feliz. Quando eu tinha quatro anos de idade e morando em Jardim, há uns trinta quilômetros da onde morava o Padre Cícero, vi uma imagem dele num buraco de andaime, em uma obra perto da minha casa. Nesta época havia em Juazeiro a fama do Padre ser santo. Eu corri para minha mãe dizendo que eu tinha visto o Padre Cícero, e ela resolveu me levar para Juazeiro para encontrar o Padre. (entrevista concedida por Menezes à autora em dezembro de 2010).

 

Alguns anos depois a família foi para Juazeiro e Zé tocou para ele um choro que compôs aos oito anos entitulado Meus oito anos e gravado no Cd Nova Bossa, “(...) e ele então colocou a mão na minha cabeça e disse meu filho você vai ser um grande músico”.

Menezes nos conta que estudou apenas seis meses de teoria musical – divisão e solfejo- na banda de música e o que o motivou foi a necessidade de aprender. Aos onze anos de idade já era membro da Banda Municipal de Juazeiro. Aos catorze passou uma temporada em Fortaleza e tocou em cinemas mudos e em bailes na cidade. Alguns anos depois, em outra temporada em Fortaleza, passou a atuar como violonista na Ceará Rádio Club e criou um regional, que atuou nessa importante emissora cearense durante quatro anos. Segundo Zé ele ia aprendendo arranjo, através da análise dos arranjos americanos que tocavam nos bailes: “a gente pegava as grades de arranjos americanos e saia tocando, tínhamos que nos adaptar aos instrumentos que tínhamos (...) e eu ia perguntando tudo a todos , por exemplo ao Mozart Brandão que sabia mais que eu, e me explicou o que era cifra”. (entrevista concedida por Menezes à autora em dezembro de 2010).

Foi na rádio PR9 que Menezes conheceu Cezar Ladeira, um dos mais importantes radialistas do Rio de Janeiro, que visitava em turnê artística o Ceará e o trouxe para Rio de Janeiro aos 22 anos para substituir Garoto, quando necessário, na rádio Mayrinck Veiga.

 

Chegando ao Rio de Janeiro

Em 1943 Menezes chegou à cidade maravilhosa e foi contratado pela Rádio Mayrink Veiga, passando a dirigir dois programas semanais tocando vários instrumentos. Em 1947 foi contratado pela Rádio Nacional, passou a atuar ao lado de Garoto no programa “Nada além de dois minutos”.

Nesta época teve que estudar muito para aprender a ler de primeira vista assim como o Garoto (para o violão esta prática não é fácil pela variada gama possibilidades de digitações). Ainda na Rádio Nacional, a maior emissora da América Latina naquele final dos anos 1940, era solista e participava de todas as formações de orquestras, acompanhando grandes artistas da época. Menezes era e é muito exigente com sua rotina de estudos. “Se você não estuda um dia, você sente, se não estuda uma semana, o público sente” (entrevista concedida por Menezes à autora em dezembro de 2010).

Em 1948 teve a sua primeira composição gravada, o samba Nova ilusão, parceria com Luiz Bittencourt que foi lançado pelo grupo Os Cariocas, na gravadora Continental. Esse samba tem mais de trinta gravações e dentre seus intérpretes estão: Billy Eckstine, João Gilberto, Dick Farney, Alaíde Costa, Radamés Gnatalli, Luiz Eça, Emílio Santiago, Ademilde Fonseca, Tom Jobim e atualmente ganhou uma versão belíssima da cantora Joyce que foi trilha da novela Viver a Vida

(Rede Globo, 2010).

 

Na década de 1950 obteve um farto reconhecimento crítico nas gravações como instrumentista, chegando a ter alto número de vendagem de discos. Gravou em solo ao violão tenor, os choros Comigo é assim e Seresteiro. Este instrumento que hoje é pouco tocado é uma especialidade de Zé Menezes e o instrumento que ele toca atualmente o acompanha desde 1931. Gravou várias composições de sucesso com seu parceiro Luiz Bittencourt (letrista).

Em 1954, lançou pela gravadora Sinter seu primeiro o LP de carreira A voz do violão.

 

Trinta anos com Radamés Gnatalli

Em pleno auge da Rádio Nacional, conheceu o maestro Radamés Gnattali e logo passou a integrar o Quarteto Continental, arregimentado por Radamés com os melhores músicos da emissora e formado por ele, Radamés Gnattali, Luciano Perrone e Vidal. Posteriormente, o grupo passou a ser um quinteto com a entrada de Chiquinho do Acordeom. Depois, Aída Gnattali, irmã de Radamés, também integrou o grupo, criando-se assim o Sexteto Radamés Gnattali. Com o Sexteto, Zé Menezes pode conhecer o mundo, viajando em 1959 para a Europa e apresentando-se na BBC de Londres, na sede da Unesco em Paris, no auditório principal da Universidade da Sorbonne, além de atuar em programas de radio e de televisão de emissoras na Itália, Portugal e Alemanha. De volta ao Brasil – e como era mesmo de se esperar – ele foi o primeiro a registrar o concerto de Radamés Gnattali para guitarra elétrica dedilhada, o “Concerto carioca”, que lhe foi dedicado por Radamés. (ALBIN)

 

Radamés escreveu dois concertos para Menezes executar e isto aprimorou muito a sua técnica: “Eu jamais pensava que iria gravar um Concerto na minha vida e ele me obrigou a estudar, me dando a responsabilidade de ser um solista” (entrevista concedida por Menezes à autora em dezembro de 2010).

Foi através do convívio com Radamés que ele deu um salto no seu aprendizado de arranjos musicais.

Você sabe que você lendo e observando as partituras de alguém você vai aprendendo, se você pegar uma partitura minha, você vai ver o jeito que eu escrevo, como é a maneira que se colocam os instrumentos em uma grade, há uma seqüência certa, e foi observando o Radamés que eu aprendi.(entrevista concedida por Menezes à autora em dezembro de 2010).

 

Mas foi a prática no estúdio de gravação que lhe deu a grande experiência como arranjador, ele podia muito freqüentemente fazer seus arranjos e escutar se ficaram bons ou não. Menezes sempre valorizou a boa harmonia como fundamental para um bom arranjo além de uma bonita introdução e final.

 

Um encontro especial com Villa Lobos

Em 1960 Menezes apresentou-se com a Orquestra da Rádio Nacional, executando a Introdução da série de Choros, de Villa-Lobos, contando com a presença do compositor e maestro na plateia.

Certo dia o chefe do arquivo da Rádio Nacional me chamou dizendo que havia uma parte para tocar do maestro Villa-Lobos, o nome da Música era Abertura ao Choro, bom, eu imaginava que era um choro, mas, era uma música sinfônica. Eu estudei e fui na casa dele para mostrar como eu estava tocando a música dele e ele era conhecido como muito exigente. Lá ele me ajudou muito a encontrar a digitação certa. E eu estudei muito e quando me apresentei com a Orquestra na Rádio lá estava ele na minha frente. No fim do concerto ele me abraçou e disse que eu era um grande violonista, pena que na época eu não tinha a noção da grandeza deste evento (entrevista concedida por Menezes à autora em dezembro de 2010).

 

Serenata de Brasília

Artistas da Rádio Nacional como Zé Menezes, Linda e Dircinha Batista, Cauby Peixoto e Abel Ferreira foram convidados para cerimônia de Lançamento da Pedra Fundamental de Brasília durante o governo de Juscelino Kubitschek. Menezes compôs a música Uma Noite em Brasília para esta ocasião.

 

Os velhinhos transviados

Outro momento importante de sua carreira fonográfica foi o lançamento do primeiro LP da série Os Velhinhos Transviados, em 1962, gravado com seu próprio conjunto, que tinha exatamente esse nome. O Grupo gravava sucessos da época em versões instrumentais e o Show tinha esquetes de humor e crooners convidadas para o baile. O nome do grupo já era uma paródia ao filme Juventude Transviada. Gravaram algumas composições clássicas como: Nós os carecas, Pierrot apaixonado, de sucesso como: Quero que tudo vá pro inferno, Mas que nada, e sucessos internacionais como: Soy louco por ti America e Hully Gullt baby. Gravou no mesmo ano o LP Os Velhinhos Transviados – Sensacionais, em 1963 os LPs: Os Velhinhos Transviados – Fabulosos e Os Velhinhos Transviados – Espetaculares e em 1964, o Os Velhinhos Transviados – Bárbaros. No total com o grupo Os Velhinhos Transviados gravou 13 LPs. Menezes nos conta que as turnês às vezes eram de 30 shows por capital e ao longo do Brasil todo, ficou dez anos viajando e no fim cansou.

 

Rede Globo

Na década de 1970, Menezes começou a trabalhar na TV Tupi e depois integrou a Orquestra da Rede Globo de Televisão como primeiro guitarrista. Na TV Globo participou dos Grandes Musicais e dos festivais de Música. Nesta época havia grandes orquestras na TV e todas as trilhas das novelas eram feitas para a orquestra.

Menezes compôs o tema de abertura do programa Os trapalhões, até hoje um clássico no seu extenso repertório.

O diretor Vanucci, que me admirava muito e me conhecia como o primeiro guitarrista da Orquestra, quis me dar uma oportunidade para fazer o arranjo da trilha de abertura dos Trapalhões. Ele me pediu uma abertura grandiosa. Eu competi com catorze maestros inclusive o Radamés, Ivan Paulo, Guio de Moraes entre outros bons (...) (entrevista concedida por Menezes à autora em dezembro de 2010).

 

Outros projetos

Em 1993, participou do projeto Viva Garoto–Projeto Memória Brasileira, em homenagem ao instrumentista Garoto. Dois anos depois, lançou o CD Chorinho in concert, no qual interpretou músicas próprias. Em 1998, gravou o CD Relendo Garoto, só com músicas do violonista paulista.

Pouco depois, atuou como solista convidado de grandes orquestras, como a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA), na abertura do Mercosul. Zé Menezes realizou parcerias com Tom Jobim, Meira, Baden Powell, Raphael Rabello e Roberto Carlos dentre tantos outros.

 

Século vinte e um: Zé Menezes-Autoral

Com a chegada do novo milênio Zé ingressou na faixa dos 80 com um fôlego que muitos jovens não têm. É a partir deste momento que eu, Daniela Spielmann, saxofonista e flautista, tive a imensa sorte de cruzar a minha trajetória musical com a deste mestre maravilhoso.

Foi no ano de 2004 que se deu o início do projeto Zé Menezes–Autoral produzido por Luiz Rocha, que teve a maravilhosa idéia, e força de vontade para buscar meios de viabilizar o projeto, da gravação de três CDs e um CD-room contendo seu acervo digitalizado. Rocha conseguiu o Patrocínio da Petrobrás e neste projeto Menezes aparece como compositor, como arranjador e como instrumentista.

Luiz Rocha me convidou e participei da gravação desses três Cds, um mais bonito que o outro, sendo que no Cd Gafieira Carioca, além de tocar no Cd, fui presenteada com um frevo, “Foram dois frevos compostos em homenagem aos 100 anos de Frevo, Essa é pra Dançar e Dani no Frevo, que foram carinhosamente dedicados á Gilberto Gil e Daniela Spielmannn, respectivamente.”

(ALBIN).

Menezes é sempre muito generoso abrindo sempre espaço para que músicos mais novos aprendam com ele, brincalhão e diz sempre: “... sou bonito, sou rico, moro perto, toco bem, tenho telefone... porém, tenho um grande defeito, sou muito modesto! (...) Você gosta de tocar? Então porque não aprende?” E é com este jeito brincalhão e espontâneo que ele segue sua carreira, hoje aos 89 anos, compondo, fazendo arranjos e shows para divulgar sua obra e dar o exemplo de que a idade não é limite para que se continue em atividade e produzindo arte.

 

Discos de carreira

A voz do violão -Sinter – 1954

Ritmos em alta fidelidade - Sinter – 1957

Para ouvir, dançar e amar -Rca victor - 1961

Os velhinhos transviados Rca victor – 1962

Os velhinhos transviados - sensacionais Rca victor - 1962

Os velhinhos transviados - fabulosos Rca victor – 1963

Os velhinhos transviados - espetaculares -Rca victor – 1963

Os velhinhos transviados - bárbaros! -Rca victor – 1964

Os velhinhos transviados na curtisom -Rca victor - 1971

Chorinho in concert - Cid – 1995

Relendo garoto RGE – 1998

Zé Menezes – Autoral – Regional de Choro - 2005

Zé Menezes – Autoral – Gafieira Carioca - 2007

Zé Menezes – Autoral – Nova Bossa - 2010

Box-contendo os três CDs Zé Menezes Autoral e um CD- Rom com acervo digitalizado – partituras, vídeos, fotos e pequena biografia- 2010.

 

REFERÊNCIAS

ALBIN, R. C. O Livro de Ouro da MPB. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.

______. Dicionário Houaiss da Música Popular Brasileira. Instituto Houaiss, Instituto cultural

Ricardo Cravo Albin. Criação e supervisão geral: ALBIN. Rio de Janeiro: Paracatu, 2006.

______. Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. http://www.dicionariompb.com.br/

Acessado em: dez/2010.

______. www.Zemenezes.com.br/biografia Acessado em: dez/2010.

CAZES, H. Choro: do quintal ao Municipal. São Paulo: Editora 34, 1997.

 

TINHORÃO, J. R. Pequena História da Música Popular: da modinha à lambada. São Paulo: Art.

Editora, 1991.

______. Música Popular um tema em debate. São Paulo: Editora 34, 1997

______. Pequena História da Música Popular. Rio de Janeiro: Circulo do livro, 1973.

 

VASCONCELOS, A. Carinhoso etc. tal, - História e Inventário do Choro. Rio de Janeiro: Gráfica

Ed. do livro, 1984.

Recebido em: 20 de dezembro de 2010.

 

Fonte: www.uva.br/trivium/edicoes/edicao-ii-ano-ii/artes/1-ze-menezes-80-anos-de-musica-com-muita-disposicao.pdf

 


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