Os Originais do Samba e Mussum

 

"Mussum mudou completamente o estilo original do quarteto. Era o traço da união entre o pessoal da favela e a galera do asfalto".
Emanoel Rodrigues


No filme-documentário O Mundo Mágico dos Trapalhões, de 1981, o apresentador Chico Anysio, ao se referir a Mussum, o apresenta assim: "Antonio Carlos Bernardes Gomes. Nome de poeta". Claro, todos sabemos que o carioca Mussum não era um poeta por natureza, mas seu talento o tornava tão sensível e habilidoso quanto um.

Quando falamos de Trapalhões, mesmo entre as diversas gerações que o acompanharam, a preferência, de forma quase unânime, sobre quem era o mais engraçado vai mesmo para o carioca "Caco" - apelido dado pela sobrinha de sua esposa (segundo ela, Mussum era parecido com Caco, o Sapo, da série infantil The Muppets).

Mussum era parecido com o sapo Caco, segundo a sobrinha de sua esposa

 

Muito antes de ser Caco, porém, Carlos era o famoso Carlinhos, ou Mumu da Mangueira. O apelido Mussum, aliás, veio de outro génio, Grande Otelo (1915-1993). "Aquele nome não parecia de 'crioulo'", dizia o ator, que devia estar certo, já que o sambista nunca mais perdeu o apelido, que, assim como no caso de Dedé, tornou-se parte integrante de sua biografia.
Mussum apoderou-se de Antonio Carlos e nunca mais saiu de lá.

A forma como Mussum entrou para Os Insociáveis (ainda estamos nessa fase) também mostra divergências conforme os depoimentos que recolhemos. Segundo Dedé, ele foi o responsável por sugerir o nome a Aragão e convidar o sambista, que, à época, fazia parte do conjunto musical Os Originais do Samba — que está, aliás, até hoje na ativa.

Dedé afirma ter se baseado em um motivo especial para a vinda de Mussum ao grupo. "Toda série norte-americana possui um negro no elenco. E toda série americana com um negro faz sucesso. Temos que colocar um", teria dito ele ao comediante líder do grupo. Renato, então, teria cogitado a presença de Tião Macalé (1926-1993), que fez muito sucesso em programas como Balança, mas não cai e faria parte, posteriormente, do elenco de apoio de Os Trapalhões - Renato, inclusive, sempre afirmou que Tião Macalé é um "trapalhão adotivo".

Quando perguntado sobre a possibilidade de ter Macalé no elenco, Dedé foi contra, em especial por causa das dificuldades que o ator tinha em decorar textos - curiosamente, essa mesma dificuldade o tornou tão popular e engraçado.

Dedé era amigo íntimo de Mussum. E então, respondeu ao colega: "Eu tenho o Mussum". "Que Mussum?", teria indagado Renato. Dedé, então, explicou que Mussum já havia feito "algumas pontas" com Chico Anysio, e tocava em um conjunto musical. E garantiu que ele seria o terceiro trapalhão ideal. "O Mussum vivia lá em casa, eu ia muito aos shows deles, e era sempre ele quem abria o show, falando daquele jeito sossegádis, tranquila, relembra Dedé, imitando o modo único de falar do cantor.

Curiosamente, porém, Renato Aragão afirmou justamente o contrário durante entrevista para o especial "Trapalhão Forévis", da revista Superinteressante. Segundo o que contou, a sugestão'da entrada de Mussum teria partido dele. Dedé fez o convite, mas apenas depois de Aragão ter recomendado. Aragão ainda acrescenta que Dedé foi contra a vontade do colega, mas chamou o sambista.

Indo além de boatos ou esquecimentos, o que sempre sem sombra de dúvidas - ser muito franca foi a amizade entre Dedé e Mussum, confirmada por Paula, a filha mais velha do humorista da Mangueira: "O meu pai possuía um carinho muito grande pelo Dedé. Eles se falavam pelo telefone de madrugada, de fim de semana, sempre". Já com respeito à relação de Mussum e Renato, Paula diz que "os dois eram bons amigos, mas, às vezes, se viam como colega de trabalho".

A entrada de Mussum para Os Insociáveis aconteceu no ano de 1970. Renato, que escrevia parte dos roteiros do programa, foi precavido com a possível timidez de Mussum em sua estréia: "O Renato foi muito inteligente. No primeiro programa, o Mussum só entrava, dava uma piadinha e saía, e o Renato fez
pra testar mesmo. Mas não adiantou, no terceiro programa, ele [Mussum] já tomou conta. Entrou meio tímido no primeiro, no segundo, mas no terceiro ele era o Mussum que eu conhecia", revela Dedé.

Que Dedé e, em pouco tempo, o Brasil inteiro conheceria. Adriano Stuart, que trabalhou por muitos anos com os Trapalhões na TV e no cinema, conta que, certa vez, a TV Globo realizou uma pesquisa para o público eleger o humorista mais engraçado da televisão brasileira. "Deu Mussum em 1º,
Costinha em 2º, Chico Anysio em 3º e Renato Aragão em 4º", conta Stuart.

De fato, Mussum possuía uma espontaneidade que sempre lhe foi peculiar. Sua maneira de falar, de brincar (e até de beber) encantou platéias infantis e adultas, seja na TV ou no palco.

Sobre a bebida, aliás, Paula foi enfática ao afirmar que Mussum era uma pessoa muito sóbria e reservada dentro de casa: "Jamais o vi bebendo mais do que qualquer indivíduo bebe em eventos sociais". Segundo ela, o público tinha uma falsa impressão de que seu pai era um alcoólatra inveterado.
"Aquilo era muito de interpretação", conta.

Com um elenco formado por Renato Aragão, Dedé Santana, Mussum e Roberto Guilherme, Os Insociáveis incomodava frequentemente a concorrência. Era exibido às 20 horas no domingo, horário que já rivalizava com o Fantástico, da Globo.

Então, surgiu a oportunidade de atuar na TV Tupi do Rio.

Vale lembrar que, em uma época na qual as redes nacionais de televisão não existiam, ou, ainda, eram apenas montadas, muitas emissoras de mesmo nome competiam entre si. Era o caso da própria Tupi, por exemplo, que considerava as emissoras de São Paulo e Rio como ferrenhas rivais.

O caminho rumo ao nome definitivo do grupo estava próximo...

 

★★★★★

Luis Joly e Paulo Franco


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